Blue Note: Sete décadas dedicadas ao jazz

06/08/2018 | 20:12

Por Emerson Lopes *

Tudo começou com uma gravação com os pianistas Albert Ammons e Meade Lux
Lewis, em 13 de janeiro de 1939, na cidade de Nova York. Neste dia, os imigrantes alemães
Alfred Lion e Francis Wolff criaram um dos pilares da história do jazz, a gravadora Blue Note. Além de suas gravações históricas, o selo também é lembrado pelo design moderno e inovadores de suas capas e pela qualidade sonora de seus discos. Os responsáveis por isso eram, respectivamente, o designer Reid Miles e o engenheiro de som Rudy Van Gelder.

Durante os 15 anos em que trabalhou na gravadora, Miles fez cerca de 500 capas e soube como ninguém aliar sua técnica às fotos de Wolff. Como esquecer capas clássicas como Soul Station, de Hank Mobley, Mode For Joe, de Joe Henderson, Hub-
Tones, de Freddie Hubbard e Point Of Departure, de Andrew Hill. Já Van Gelder tornou-se sinônimo de qualidade e foi responsável por gravações definitivas dos principais músicos do selo, como Kenny Burrell, Miles Davis, Thelonious Monk, Art Blakey e Wayne
Shorter.

O auge da Blue Note aconteceu durante os anos 50 e 60, época em que o jazz deixava o bebop para trás e avançava no caminho do hard bop e avant-garde. Entre dezenas de discos e jazzistas que fizeram a história da gravadora, é de vital importância citar os nomes dos saxofonistas Wayne Shorter, Joe Hendeson, Hank Mobley, Lou Donaldson, Dexter Gordon, Eric Dolphy, Stanley Turrentine, Sonny Rollins e Jackie McLean, dos pianistas Herbie Hancock, Andrew Hill, Horace Silver, Bud Powell, Sonny Clark e Kenny Drew, dos trompetistas Freddie Hubbard, Donald Byrd, Blue Mitchell e Lee Morgan, do organista Jimmy Smith, dos guitarristas Grant Green e Kenny Burrell, do vibrafonista Bobby Hutcherson e do baterista Art Blakey e o
seu Jazz Messengers.

(Da esquerda para a direita): Ravi Coltrane, Lewis Nash, Bill Charlap, Peter Bernstein, Nicholas Payton, Peter Washington e Steve Wilson.

Em 2009, para festejar os 70 anos da Blue Note, um conjunto com sete feras do jazz lançou o disco Mosaic, A Celebration of Blue Note Records;. Denominado The Blue Note 7, o grupo tem a seguinte formação: Bill Charlap (piano), Nicholas Payton (trompete) , Steve Wilson (sax alto e flauta), Ravi Coltrane (sax tenor), Peter Bernstein (guitarra), Peter Washington (baixo) e Lewis Nash (bateria).

Apesar da maior parte dos músicos nunca ter gravado pela Blue Note, o tributo ficou a altura da importância e da influência que o selo exerce desde a década de 1940. No repertório, composições de jazzistas que marcaram a história da gravadora: Cedar Walton, Joe Henderson, McCoy Tyner, Herbie Hancock, Horace Silver, Thelonious Monk, Duke Pearson e Bobby Hutcherson.

A escolha do tema “Mosaic”, de Walton, para abrir o disco não poderia ter sido mais acertada. Em seus oito minutos, a música abre espaço para quase todos os instrumentistas, com exceção de Washington. Na sequência é a vez dos metais (saxes e trompete) tomarem a frente no tema “Inner Urge”, de Henderson.

Já em “Criss Cross”, de Monk, mais uma vez, todos os músicos solam, inclusive Washington. Em “Little B’s Poem”, de Hutcherson, a flauta de Wilson e a guitarra de Bernstein é que dão o tom. A guitarra também é destaque na suave “Idle Moments”, composta por Pearson, mas imortalizada no disco homônimo do guitarrista Grant Green. O toque refinado de Payton é destaque em “Dolphin Dance”, de Hancock.

Em pleno século XXI, a continuidade da Blue Note está garantida no talento de músicos como, Aaron Parks, Amos Lee, Cassandra Wilson, Ambrose Akinmusire, Gregory Porter, Jason Moran, Lionel Loueke, Madlib, Norah Jones, Robert Glasper, Trombone Shorty, entre outros. Com eles, a gravadora deixa claro que o jazz continuará vivo e forte por, pelo menos, outros 70 anos. Quem viver verá.

*Emerson Lopes é jornalista, autor do livro Jazz ao seu alcance, da editora Multifoco, e apresentador do podcast Jazzy. Saiba mais sobre o livro aqui. Ouca o podcast aqui

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